18 de abril de 2016

Desabafo


Eu queria acreditar que depois desse dia tudo mudaria,
Que meus amigos não iam mais dirigir depois de beber,
Que ninguém mais furaria a fila na minha frente,
Que os políticos eleitos nesse ano governariam a cidade pela população, e não pelas construtoras;
Que a minha orientação política não limitasse as minhas amizades,
Que os meus professores dariam aula para ensinar os alunos e não por serem obrigados,
Que as pesquisas feitas na minha universidade melhorariam a vida da população,
Que cada um poderia trabalhar com o que ama fazer,
Que o dinheiro dos impostos voltaria como melhorias no cotidiano,
Que nenhuma empresa mais sonegaria impostos e que nenhum partido faria caixa dois em suas campanhas,
Que os policiais deixariam de exigir propina para você realizar o seu trabalho,
Que ninguém mais morreria por causa da sua orientaçõ sexual,
Que os viciados seriam tratados como doentes em vez de criminosos,
Que o lugar em que você nasce não limitaria o seu sucesso,
Que as roupas jogadas no fundo do armário serviriam para aquecer outra pessoa nesse inverno,
Que as pessoas não achariam mais normal ver um cara beijando uma menina a força,
Que os brinquedos não se distiguiriam mais entre "pra menina" e "pra menino".

Eu queria acreditar que o amor venceria o ódio, 
Que ninguém mais exultaria torturadores,
Que as pessoas achassem uma razão para viver melhor que o dinheiro,
Que as pessoas tivessem empatia e respeito independente de religião,
Que a educação seria para ensinar nossas crianças a pensar e questionar,
Que as pessoas buscariam informação antes de comentar um assunto,
Que a mídia não teria mais tanto poder sobre a opinião.

Eu queria acreditar, mas ta ficando cada vez mais difícil.

20 de janeiro de 2016

O Afogado

Vou descendo, à profundar em vã imensidão, de pouco a pouco, a lentos metros, agarrando-me no anil hiato sem sustentação. De minha boca, de meu abarrotado pulmão, deixo que escape um grito mudo, rastro de bolhas em oposta direção. - Para ver se não me perco, se não esqueço a orientação. - E de minhas pernas pesadas, pelo chumbo que puxa-me ao chão, sinto chegar uma terra profunda, um abismo longo, que na verdade, não chega não.

No pélago das dúvidas perenes, sou inundado de palavras não ditas, que lotam-me a garganta - rompem-me a laringe que grita. - E fazendo o caminho inverso, essas palavras indizíveis, agudas voltam em profusão – agora legíveis – com único intuito de dragar meu coração, de fazê-lo perder-se no profundo dos temores acessíveis.

Posso perceber o borbulhar subindo, do grito não ouvido, escalando garganta à cima - as paredes lisas das bolhas em atrito – em um som implausível, um gutural e pouco expressivo grunhido, um gorgolejar de mágoas, incontido. Tento agarrar as bolhas, segurar o respiro, contrair o peito, em um fraco esforço torcido. Lanço o olhar à cima, ao infinito, para acreditar que não caio, mas que, na verdade, levito.

Sufoco no mote sem expurgo, na infinidade do não dito, em cada dano ou cada chaga, que não pode no brado ser expelido. Entalado na garganta, preso aquém do grito, sinto o nó d’água, a falta do ar que preciso. E em cada silaba não pronunciada, é mais uma grama adicionada à gravidade que deslizo.

Minha mente torna-se então mais espaçada, e as luzes não alcançam-me mais as vistas. Sinto a envolver-me perguntas, minhas e de outras tantas línguas. Todas úmidas, à prender-me por dentro, cativo com minhas próprias frases solistas. Eis que afundo pesadamente, sou em minha alma agora submergido, enquanto percebo o ar que me abandona, e o negror à puxar o corpo já esvaecido. Sou afogado em pensamentos, de azul cingido; estrangulado, por palavras que se fizeram no ardor contido. 

Pois há tanta voz, tanto grito, que pelo peito não pode ser absorvido. Mas que ainda assim, por mais renhido, há algo no corpo que não o deixa ser expelido. Um nó de carne, para o brado, obstruído, que acaba por aos poucos estrangular, entre tanto arroubo reprimido.

Ilustração: Pete Mohrbacher

8 de setembro de 2015

O Licantropo


Da força que corre em minhas veias, sinto a respiração de uma animália adormecida. Uma pequena besta, enrolada na própria calda, em meu tórax escondida. Sinto-lhe arfar, a cada pulso, em cada angustia retida; por cada músculo, tendendo tomar o corpo que lhe confina.

Enroscada, como mancha negra, repousa esta fera cativa, de olhos semicerrados, aguardando que os tambores do peito a chamem com suas batidas. Uma vez desperta, desatada a morder imperativa, mastiga-me o cárdio, exercitando-lhe os dentes com meu coração em feridas.

Masca-me o peito de ociosa, esta fera lupina, aguardando que lhe deem espaço, esperando poder fugir paulatina; dobrando seu tamanho, a cada desgraça repentina, correndo aos uivos, da cabeça a barriga.

Rosna, arranha e mastiga. Come-me aos poucos, dilacera-me as tripas. Avança, mordida por mordida, aguardando a vara alheia que a atiça.

Tem gosto por sangue, seja o meu ou o de outras vítimas, e só sacia-lhe quando, por minha alma, o sabor ferroso a impregna. Tinge de vermelho, meu peito, minha carne, minhas vistas. Cresce em meu âmago, faz de minha alma o espólio de sua conquista.

E quando, por fim, de fora cutucam esta fera contida, ela escapa-me em estrondo, transbordando sua ira. E eu, feito fera ferida, deixo-a que tome posse, que minha voz vire o ladrar de sua cólera mortífera.

Acuado, a lamber minha feridas, escondo-me em meu íntimo, aguardando que se esgote sua vociferação purgativa, enquanto em minha boca espuma o veneno de sua tóxica saliva. Sinto atingir-me o gosto escarlate, descendo, deslizando, a cair em meu espírito como ogiva. E, no entanto, delicio-me com sabor, compactuando com sua essência destrutiva.

Quando, ao final, gasta sua força erosiva, volta a dobrar-se em meu peito, a se enroscar acolhida. Caí satisfeita em sono, exaurida, mas mantem-se alerta – ativa – para que, ouvindo a mais simplória das batidas, volte a abrir os olhos, a despertar-se efusiva. E em modorra, ponha-se, em meu cárdio, a afiar os dentes com suas mordidas.

Ilustração: G. Pawlick

6 de julho de 2015

Reflexos de Prata

I

Reflexo de prata,
luz de meus olhos nos seus,
intenso fulgor que retrata
esta falsa bravata dos meus.

Um febril fitar contínuo,
que no desespero, o verbo logo desata,
e os lábios secos, em desatino,
escondem a paixão imediata.

Sobe-me no peito, um suspiro calcinante,
que ao corpo prontamente arrebata,
enquanto vou mirando incessante
aqueles passivos lábios diplomatas,

de som doce e flutuante,
que à conversa conduz e desata,
enquanto em meu peito arfante
busca-se a palavra exata.

E, em minha boca falante,
de diálogo largo,
a língua abrasante
embriaga-se de vinho doce e café amargo.

na esperança do adiante,
de encontrar-se com aqueles outros:
tão finos e delicados.

II

Reflexo de prata,
luz de seus olhos nos meus,
desarmando a casamata
de meus parvos sentimentos ateus.

Sugam-me para dentro
estas órbitas dissimuladas,
tornando-se o centro
de minhas paixões incubadas.

Imã de corações,
senhora de minhas sonatas,
que não defino as colorações
destas íris abstratas.

Na verdade não me importam,
se verdes ou pardas,
apenas que me confortem
nestas noites atormentadas,

que me engulam por completo,
para perder-me por sua morada,
ou que façam de mim repleto
dessas cores nunca pintadas.

Leve meu reflexo,
livre-me desta velha alma,
pois nesse vítreo convexo
ela já está fixada.

III

Reflexo de prata,
luz de meus olhos nos seus.
Sentimentos que o peito acata,
sem perguntar as intenções dos teus.

Presa neste luzeiro,
nestas íris emoldurada,
não enxergo a paixão nascente,
conspícua pela pupila dilatada.

Vejo somente o espelho fronteiro,
onde minha alma está encarcerada,
entregue por vontade própria, dormente
por essas batidas incalculadas.

Sugam-me para dentro
os contornos negros desta simples mirada.
E eu, tolo, desconcentro.
Pelo sorriso escondido, com a mão requintada.

Sou levado,
por cada melindre hesitante,
separado,
pelo tempo que surge cortante.

IV

Vou me embora,
sem brilho, sem beijo, sem obstante,
à medida em que me aflora
um asmático murmúrio luxuriante.

Sento-me na noite,
de cigarro acesso, agonizante,
contemplando daqueles olhos o cintilante,
sentindo, do tempo, o açoite.

Sou imerso na madrugada,
ficando, por cada estrela, alucinante,
revendo nelas o brilho agora distante
daquelas íris encantadas.

Sinto o tórax palpitante,
enquanto fico em muda serenata,
tentando descobrir o doravante
com esse, agora fixado em mim, reflexo de prata.

Veja a postagem original em G.Pawlick

5 de junho de 2015

O Ervanário


O meu peito é um relicário, um relicário do pesar alheio. Por tantas mágoas e receio, por tantas chagas, que ao próximo estendo o espelho. Sou aquele que, compulsivo, guarda dos outros os anseios, e que, no imenso arquivo, faz dos dramas hospedeiros o adendo ao meu tom cativo. 

Guardo, das almas o impreciso, das falhas o inciso, e dos louros, faço questão de não esquecer-me dos risos. Uma compota separada, a cada ombro amigo, um frasco novo, a cada história de desconhecidos. Acumulo, por entre potes e vidros, da lágrima tímida ao camuflado sorriso, da emoção lívida ao desabafo conciso. 

É um espólio denso, de amores lisos e lágrimas de vidrilhos, de amargos colmilhos, enrolados em grossos fatos imprecisos. Pendurados, conservo doces ramos de amores desiludidos, ao lado de emoções murchas, secas ao sol, de galhos curtidos. Em conserva, tenho o cancro dos arrependidos, assim como, mofados frutos de amores partidos. 

Tenho pó de raízes de culpa, feito amido. Tenho grãos, de sonhos não plantados e de temores não colhidos. Tenho óleos perfumados, de paixão contida. Há até desidratados ramalhetes, nascidos de abertas feridas. 

Faço nos outros minha colheita, juntando todo tipo de especiaria, misturando, com meus próprios brotos de fantasia. Vou galgando, a cada mistura bem sucedida, entre o amargo desgostoso e a tétrica nostalgia – tantas vezes nem vivida. Vou impregnando-me, da fragrância genuína, que de cada invólucro aberto, exala por meu tórax e o impregna. 

Sou levado, no preparo de minhas iguarias, sou tragado, por minha própria nicotina. Deixo que me leve cada acre gosto e cada eflúvio de euforia, que cada composto, fermente à extasia. E que depois de pronto, mesmo as vezes a transfigurar meu rosto, deixo que tinja minha alma vazia. 

Imagens retiradas da internet.

31 de março de 2015

Reflexões de um maratonista


Uma das coisas mais difíceis de aprender ao longo dos anos é que a vida não é uma corrida nem uma competição. O instinto competitivo é natural do ser humano e desde pequenos somos instigados a competir entre nós, seja em quem é melhor em um esporte, ou quem tem as melhores notas na escola. Somos educados de maneira a sermos os melhores trabalhadores do futuro e premiamos aqueles que mais se encaixam no sistema, mas não ensinamos como lidar com as responsabilidades do mundo tão bem quanto ensinamos a resolver equações.

Não tem uma vida melhor quem consegue um diploma primeiro ou quem encontra um bom emprego mais cedo. A vida não é baseada em quem é melhor em acumular riquezas ou conhecimento. O problema reside justamente na questão "Sobre o que é a vida afinal?". 

Baseados em religiões, princípios, morais tentamos sempre achar um verdadeiro sentido para a vida, mas o que esquecemos é que isso não é uma verdade universal. Como cada um busca achar o sentido da sua própria existência tentamos competir com outras pessoas que não estão jogando o mesmo jogo que a gente. Baseados em nossas próprias fórmulas de pontuação buscamos subir nesse ranking e sermos melhores que todo mundo, ultrapassando perdedores que perdem tempo com besteiras ou que simplesmente não servem para jogar o nosso jogo. 

A felicidade e a paz de espírito residem justamente em entender que a vida não é essa competição entre mim e os outros, mas sim uma competição minha contra eu mesmo. Cabe a nós entender que devemos ser melhores a cada dia, mudando, se reinventando e persistindo nessa busca pelo lugar mais alto do pódio.

27 de março de 2015

Out of sight, (not) out of mind


Há quanto tempo já não deito o olhar
sobre teu rosto? Há dias, semanas,
meses... e tantas horas desumanas
e infinitas, tal gotas d’água ao mar.

Onde estás, onde estás nesse momento?!
Pudera a essa saudade asas haver
para te achar e a mim já te trazer,
e terminar de vez com meu tormento.

E se te avisto em sonhos, a bater
rápido, do meu peito o coração
quase me salta fora de contente.

Não vês o que te tento aqui dizer?
Sempre me estás fora de visão,
porém nunca me estás fora de mente.


Sehnsucht versteckt
sich wie ein Insekt.
Im Schlafe merkst du nicht
dass es dich sticht.
Ilustração: contraomnes

25 de março de 2015

O Moleiro


Meu trabalho é parco, dependente do mó em meu coração. É espera resoluta, pelo enxague de sentidos - pelo desague de paixão - Por qualquer movimento, que venha a gerar força na roda dentada de meu peito vão.

Trabalho com uma máquina prosaica, um rude e arcaico moedor e grão, um moinho de carne, fazendo pó de cada sentimento, pulsando no exercício de triturar emoção. 

Passo muito tempo andando pelas barragens, observando o acumulo de sensação, na assustadora paisagem, de enormes ondas a chocarem-se em meu rude paredão, bradando grave o desejado expurgo pela imensurável lotação.

Há de ser paciente, ela não se enche simplesmente ao meu desejo. Posso, e faço normalmente, é ouvir em seus sussurros, cognatos líquidos, pequenas palavras diferentes, que geram-me lampejos. Não devo também, encher ao meu gosto a albufeira, sensações assim jogadas, forjadas, sempre movem atravancada a roda de minha máquina ribeira. 

Minha labuta, muitas vezes é esperar. Saber o momento certo de se abrir a barreira, não precisa cheia estar, mas, deve dar conta, do mó, a aguaceira. Fico, ao topo do engenho a observar, vislumbrando a alma agitada pelas sensações a tremular, com a corrente que lhe traz incertezas. Mas não devo ao destino das águas rogar. Interferir em seu caminho é a emoção manipular, é tentar imitar a natureza. É alterar o produto de minha moenda.

Não existe hora nem lugar, a que a barragem dependa, para que se encontre suficientemente cheia, para que o moinho com ela condescenda. Só devo ter espaço para trabalhar, quando é pedida a encomenda, e possa, com excelência executar, a maceração para que, não só a minha, mas outra cabeça depreenda.

Abro primeiramente as barragens, inundando meu peito, expondo o cárdio a agitação, que rodando apressado, move o mó pesado, em busca de dar conta a exacerbada vazão. Enche-se o tórax, de memórias, culpas e afeição, vindo quase a afogar a roda d’água, enquanto, esbaforido, subo rápido a construção. E lá no topo, de manivela a mão, rodando engrenagens, ponho-me ao exercício de trituração.

Vou girando a alavanca, deste engenho pesado, desta peça dura, moendo fartura de emoção, trabalhando em labuta, para macerar cada diminuta semente de aflição. Roda a roda a cada angustia, a novo rubro encharque em meu coração, fazendo farinha de silabas – miúdos pedaços de expressão. - E quando finalmente se vai a demanda, quando esvazia-se a albufeira, desço da cabeça e alojo-me em minha velha trincheira - o calejado coração - esperando que novamente se encha a barreira, que venham novas águas, que se renove de sensação. 

Após o trabalho feito, observando a represa vazia, espero que nunca se transborde a corredia sensação. Que eu possa sempre dela fazer girar o moinho, possa sempre criar novo travessão, manufaturar missivas, que não só a mim, mas aos outros, sirvam de oração.
Ilustração final: Gessony Pawlick jr.

27 de janeiro de 2015

O resgate da donzela


É essa sensação de alívio que você me traz, essa amnésia temporária de todas as mazelas do mundo, essa leveza de quem não tem que pensar no dia de amanhã que eu amo em você. Quando você chega, estonteante, às vezes junto com um presente, às vezes junto com uma notícia boa, sempre fazes o meu dia.

Às vezes passo dias, semanas, a te procurar, só para te ter por mais 15 minutos que seja. Parto em corridas desenfreadas atrás dos prazeres da vida. Sigo manuais podres, escritos de maneira torta, em busca de ti, mas nada parece funcionar muito bem.

Gostaria que fosses eterna em mim, para sempre ao meu lado. Mas tem tantos outros buscando a mesma coisa que fica difícil te ter só pra mim. Tenho ciúmes, sim, quando passo na rua por alguém que te tem ao seu lado. Sou egoísta. Queria ter todos os segredos para te conquistar, mas isso parece um vício. Toda vez que consigo chegar mais perto e te tocar, somes como um espírito, fazendo graça de mim, me atirando no chão.

Como este viciado que eu sou, continuarei dedicando a minha vida a buscar-te. Gastando tudo o que tenho e o que sou nem que seja pela falsa esperança de te ter em meus braços. No fim das contas, você é tudo que interessa pra mim, Felicidade.
Pintura: Gaston Bussière

26 de janeiro de 2015

Demônio da poesia


Nessas horas já tardias
de solene solidão
me arrebata a inspiração
com mil mãos brutais e frias;
e, envolto em escuridão,
ponho-me cá a forjar
versos parcos, porém ricos,
amorfos, porém simétricos,
com muito e pouco a expressar,
despertos porém oníricos.

Ah!, e estas mãos só servem
para brincar com palavras,
quando imerso em marés bravas
do caos a quem sou refém
estou, e sob suas travas
e ordens bradando "agora!"
são estes versos marrados,
e cruelmente surrados,
desta minha alma afora,
e assim são-me espoliados.

Haverá mérito em ser
um lacaio ou um escravo,
para com os grilhões bravo
que o compelem a escrever,
em nítido desagravo,
nas várias noites sem sono?
Criatura miserável!
Erra quem o julga hábil,
sendo da própria mão dono,
da própria culpa acusável!

Acerca disso direi:
desses versos a beleza
vem adjunta à certeza,
que seu autor eu não serei!
De algo nefasto presa
sou; no escuro contra garras
luto. Me assalta em euforia
quem, nesta hora tardia,
numa cela, entre barras?
O demônio da poesia.

Suas unhas negras rasgam
minha carne e ele ferve,
em ânsia rogando: "escreve
sobre as coisas que te matam,
rastejando em tua derme,
impressas em teus neurônios.
Conheço o tormento teu,
faço dele agora o meu.
Conheces teus demônios?
São tudo isso e não eu!"

Riria-se quem então
percorresse esses versos,
em medo e angústia imersos.
Aquém de minha aflição,
aquém de meus universos,
senhores, quem não riria?
Mas cessaria o deleite,
principiaria o açoite,
se o demônio da poesia
vos visitasse à noite.
Pintura: Franz von Stuck